ASCO 2026: da oncologia de precisão ao cuidado centrado no paciente, os avanços que estão transformando o tratamento do câncer

A reunião anual da American Society of Clinical Oncology (ASCO) reafirmou em 2026 uma das principais transformações da medicina contemporânea: a oncologia está se tornando cada vez mais personalizada, multidisciplinar e centrada nas necessidades individuais dos pacientes.

Realizado entre os dias 29 de maio e 2 de junho, em Chicago, o congresso reuniu milhares de especialistas e apresentou mais de 7 mil estudos científicos. Os trabalhos discutidos ao longo do encontro mostraram avanços importantes em áreas como medicina de precisão, imunoterapia, terapia celular, oncologia molecular e diagnóstico, mas também reforçaram a importância crescente da saúde mental, dos cuidados paliativos, do exercício físico e da qualidade de vida dentro da jornada do câncer.

“Estamos vivendo uma era na qual estudos que antes levariam décadas para mudar práticas clínicas agora são rapidamente incorporados ao tratamento. A ASCO 2026 confirma essa tendência, com dados que vão além da sobrevida e passam a olhar com mais rigor para a qualidade de vida, o acesso às terapias e a personalização do cuidado”, afirma Carlos Gil Ferreira, CEO da Oncoclínicas&Co.

Novas fronteiras no câncer de pulmão: estudos destacam estratégias para evitar a volta da doença e ampliar os resultados da imunoterapia

Entre milhares de trabalhos submetidos à reunião anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), apenas um grupo bastante restrito é selecionado para a sessão plenária, espaço reservado às pesquisas com maior potencial de transformar a prática médica. Em 2026, dois estudos em câncer de pulmão conquistaram esse destaque ao apresentar resultados capazes de influenciar o tratamento da doença em diferentes momentos da jornada do paciente.

Um dos principais destaques foi o estudo de fase 3 LIBRETTO-432, que avaliou o uso do selpercatinibe em pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células (NSCLC) com fusão RET submetidos à cirurgia com intenção curativa. Embora essa alteração molecular esteja presente em uma pequena parcela dos casos, ela se tornou cada vez mais relevante graças ao desenvolvimento de terapias-alvo altamente eficazes.

O selpercatinibe já é utilizado em pacientes com doença avançada e demonstrou respostas duradouras nesse cenário. Agora, os pesquisadores investigaram se a mesma estratégia poderia beneficiar pacientes em estágios mais precoces da doença, reduzindo o risco de recorrência após a cirurgia.

“São estudos que mostram como a medicina de precisão continua avançando. De um lado, buscamos reduzir o risco de o câncer voltar após a cirurgia. De outro, estamos desenvolvendo estratégias mais sofisticadas para potencializar a resposta do sistema imunológico contra o tumor”, afirma William Nassib William Jr., líder nacional da especialidade de tumores torácicos da Oncoclínicas.

Também selecionado para a plenária, o estudo HARMONi-6 avaliou o ivonescimabe em combinação com quimioterapia para pacientes com câncer de pulmão escamoso avançado sem tratamento prévio. O grande diferencial da droga é seu mecanismo de ação biespecífico, desenhado para atuar simultaneamente sobre a via PD-1, alvo já explorado pelas imunoterapias atuais, e sobre o VEGF, proteína associada à formação dos vasos sanguíneos que alimentam o crescimento tumoral.

Na prática, a estratégia busca unir em uma única molécula mecanismos capazes de aumentar a resposta imunológica contra o câncer e, ao mesmo tempo, interferir em processos que favorecem a progressão da doença. Os resultados reforçam uma tendência cada vez mais evidente na oncologia: terapias desenvolvidas para agir de forma simultânea sobre diferentes mecanismos biológicos do tumor, ampliando as possibilidades de controle da doença.

Pílula revolucionária dobra tempo de sobrevida no câncer de pâncreas

Entre os estudos apresentados na sessão plenária da ASCO 2026, um dos que mais despertaram entusiasmo entre os especialistas foi o RASolute 302, que avaliou o daraxonrasib em pacientes com adenocarcinoma ductal pancreático metastático previamente tratado. Considerado um dos tumores mais agressivos da oncologia, o câncer de pâncreas historicamente apresenta poucas opções terapêuticas eficazes, especialmente após a falha da primeira linha de tratamento.

O medicamento, desenvolvido para atuar diretamente sobre a proteína RAS, representa uma nova geração de terapias direcionadas. Mais de 90% dos pacientes com a forma mais comum da doença apresentam alterações no gene KRAS, considerado durante décadas um dos alvos mais difíceis da oncologia. O daraxonrasib foi desenvolvido justamente para bloquear essa via molecular responsável pelo crescimento e pela disseminação tumoral.

Os resultados apresentados em Chicago foram considerados um marco para a especialidade. O estudo acompanhou 500 pacientes que já haviam recebido ao menos uma linha de tratamento e demonstrou ganhos consistentes em múltiplos desfechos clínicos. Os pacientes tratados com a terapia oral apresentaram sobrevida global mediana de 13,2 meses, praticamente o dobro da observada no grupo que recebeu quimioterapia convencional, cuja sobrevida variou entre 6,6 e 6,7 meses.

Além disso, o medicamento reduziu o risco de morte em aproximadamente 60% e também promoveu melhora significativa na sobrevida livre de progressão. A taxa de resposta objetiva atingiu 33,2%, contra 11,8% no grupo tratado com quimioterapia, enquanto o controle da doença foi observado em quase um terço dos pacientes.

“Esses resultados representam uma virada real na oncologia pancreática. Pela primeira vez temos um medicamento que ataca diretamente o mecanismo molecular que impulsiona esse tumor e os números são impressionantes”, afirma Mauro Donadio, oncologista especializado em tumores do aparelho digestivo da Oncoclínicas.

Segundo o especialista, os resultados observados no estudo são suficientemente robustos para modificar a prática clínica. “De forma prática, o estudo avaliou pacientes com câncer de pâncreas que já haviam progredido após a primeira linha de tratamento paliativo. Aqueles que receberam a medicação oral dobraram a sobrevida livre de progressão e a sobrevida global, com redução do risco de morte e de progressão em torno de 60% e taxa de resposta três vezes maior. Isso o torna o novo padrão de tratamento de segunda linha para o câncer de pâncreas metastático”, destaca.

Outro aspecto que chamou atenção foi o impacto sobre a qualidade de vida. Além de viverem mais tempo, os pacientes tratados com daraxonrasib demoraram mais para apresentar piora de sintomas relacionados à doença, incluindo dor e comprometimento funcional. O perfil de segurança também foi considerado favorável, com baixa taxa de interrupção do tratamento em decorrência de efeitos adversos.

Para os especialistas, o estudo simboliza não apenas o surgimento de uma nova opção terapêutica, mas também a validação de uma estratégia molecular que durante muitos anos foi considerada inalcançável. A expectativa agora é acompanhar o processo regulatório e os estudos que investigam o uso do daraxonrasib em fases mais precoces da doença e em combinação com outras terapias.

Os avanços que podem mudar o futuro do câncer de próstata, bexiga e rim

A área de tumores geniturinários foi também uma das mais movimentadas da ASCO 2026. Os estudos apresentados mostram uma oncologia cada vez mais personalizada, menos centrada apenas em prolongar a sobrevida e mais preocupada em equilibrar eficácia, qualidade de vida e individualização das estratégias terapêuticas.

Entre os trabalhos mais aguardados esteve o PROTEUS, escolhido para a sessão plenária do congresso. O estudo de fase 3 avaliou o uso da apalutamida combinada à terapia hormonal antes e depois da cirurgia em pacientes com câncer de próstata localizado de alto risco.

Atualmente, o padrão de tratamento costuma ser realizar a cirurgia e decidir posteriormente sobre terapias complementares. O PROTEUS investiga uma abordagem diferente: intensificar o tratamento antes da cirurgia, buscando reduzir a carga tumoral e diminuir o risco de progressão futura.

O estudo incluiu mais de 2.100 pacientes com câncer de próstata localizado de alto risco, grupo que apresenta maior probabilidade de recorrência após a cirurgia. Os participantes receberam terapia hormonal associada ou não à apalutamida por seis meses antes do procedimento cirúrgico e por mais seis meses após a operação. Os dois desfechos primários da pesquisa foram atingidos, com aumento significativo das respostas patológicas completas e redução de 20% no risco de desenvolvimento de metástases entre os pacientes submetidos ao tratamento intensificado.

“O PROTEUS foi um grande estudo de fase 3 em pacientes com câncer de próstata localizado de alto risco e atingiu seus dois desfechos primários, com aumento das respostas patológicas completas e redução de 20% no risco de metástase. O tratamento também mostrou benefícios em outros desfechos, incluindo o atraso na necessidade de terapias adicionais por mais de três anos. Esses resultados podem influenciar a prática clínica em alguns pacientes que hoje seguiriam diretamente para a cirurgia. Embora ainda seja necessário entender melhor quais grupos mais se beneficiam da estratégia, o estudo reforça que existe espaço para melhorar os resultados cirúrgicos e reduzir o risco de recorrência por meio de uma abordagem pré-operatória”, explica Denis Jardim, líder nacional da especialidade de tumores urológicos da Oncoclínicas.

Outro destaque importante foi o TALAPRO-3, que avaliou a combinação de talazoparibe com enzalutamida em pacientes portadores de alterações genéticas ligadas ao reparo do DNA, como mutações em BRCA. Esses pacientes costumam apresentar tumores mais agressivos e respostas menos duradouras aos tratamentos convencionais.

A programação também trouxe discussões sobre o estudo A-DREAM, que investiga a possibilidade de interrupções temporárias da terapia hormonal em pacientes com respostas profundas e sustentadas. A proposta reflete uma mudança importante de mentalidade dentro da oncologia moderna: não apenas aumentar a sobrevida, mas também reduzir o impacto dos tratamentos sobre a qualidade de vida.

Outro tema de destaque foi a evolução dos radioligantes. Novos estudos com Actinium-PSMA617 sugerem o potencial de uma nova geração de terapias direcionadas capazes de levar radiação diretamente às células tumorais, ampliando a precisão do tratamento.

CAR-T produzido dentro do próprio organismo desponta como possível nova fronteira no tratamento do mieloma múltiplo

Uma das apresentações mais inovadoras da ASCO 2026 veio da área de terapia celular. O estudo de fase 1 inMMyCAR trouxe os primeiros resultados clínicos de uma estratégia que pode simplificar radicalmente a produção das terapias CAR-T.

Atualmente, o processo exige coleta das células do paciente, envio para centros especializados de manufatura, modificação genética em laboratório e posterior reinfusão. Todo o processo pode levar semanas e depende de uma infraestrutura altamente complexa, o que limita o acesso à terapia em diversos países.

A nova estratégia propõe algo completamente diferente. Em vez de modificar as células fora do organismo, a tecnologia realiza essa reprogramação diretamente dentro do paciente por meio de uma única infusão intravenosa.

Os resultados iniciais chamaram atenção. Entre os seis pacientes tratados até o momento, todos alcançaram negatividade para doença residual mensurável já no primeiro mês após a infusão. As respostas continuaram a se aprofundar ao longo do acompanhamento, incluindo um paciente que permanecia em resposta completa estrita após seis meses.

Outro aspecto relevante foi o perfil de segurança. Não houve registro de neurotoxicidade, uma das complicações mais temidas associadas ao CAR-T convencional, e os episódios de síndrome de liberação de citocinas foram leves ou moderados.

“O CAR-T in vivo representa uma possível mudança de paradigma: em vez de fabricar a terapia em laboratório ao longo de semanas, ela passa a ser produzida dentro do próprio paciente, com uma única infusão. Se esses resultados iniciais se confirmarem, podemos estar diante de uma forma muito mais simples, rápida e acessível de oferecer terapia celular”, afirma Renato Cunha, líder do Programa de Terapia Celular da Oncoclínicas.

Para países como o Brasil, onde o acesso à terapia celular ainda enfrenta desafios logísticos e financeiros importantes, a simplificação do processo pode representar um avanço especialmente relevante.

Biópsia líquida já faz parte da rotina dos oncologistas, mas maioria ainda não se sente preparada para interpretar resultados

A biópsia líquida continua ampliando seu espaço dentro da oncologia de precisão. Capaz de identificar alterações moleculares por meio da análise de fragmentos de DNA tumoral presentes na corrente sanguínea, a tecnologia vem transformando a forma como médicos monitoram e tratam diferentes tipos de câncer.

Um estudo latino-americano apresentado na ASCO 2026 avaliou o conhecimento, as atitudes e as práticas de oncologistas em relação ao uso da biópsia líquida em pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células.

A pesquisa ouviu 178 oncologistas da América Latina, sendo quase 85% brasileiros. Embora 72,5% dos participantes tenham relatado utilizar a tecnologia na prática clínica, apenas 30% afirmaram sentir confiança na interpretação dos resultados.

Os dados também mostraram o impacto direto da educação médica. Entre os profissionais que haviam recebido treinamento formal sobre biópsia líquida, a taxa de utilização do exame chegou a 87,2%, contra 60,7% entre aqueles sem capacitação recente.

“A biópsia líquida é uma ferramenta extremamente promissora porque permite identificar alterações moleculares importantes por meio de uma simples coleta de sangue, auxiliando na escolha dos tratamentos mais adequados para cada paciente. No entanto, trata-se de um exame complexo, tanto na sua realização quanto na interpretação dos resultados”, explica William Nassib William Jr.

O estudo reforça que a incorporação de novas tecnologias depende não apenas da disponibilidade dos exames, mas também da capacitação dos profissionais responsáveis por interpretar e utilizar essas informações na tomada de decisão clínica.

Mudanças no estilo de vida podem reduzir o risco de recorrência do câncer de mama

O estudo MedDiet reforçou o papel dos hábitos de vida na saúde de mulheres que já passaram pelo tratamento do câncer de mama. A pesquisa avaliou os efeitos de uma intervenção baseada em dieta mediterrânea de baixo índice glicêmico, atividade física e suplementação de vitamina D sobre a recorrência da doença e fatores cardiometabólicos.

Realizado em sete centros oncológicos da Itália, o estudo de fase III acompanhou mulheres diagnosticadas com câncer de mama em estágio inicial. As participantes foram distribuídas entre um grupo que recebeu orientações padrão sobre dieta mediterrânea e combate ao sedentarismo e outro submetido a uma intervenção mais intensiva, que incluía alimentação de baixo índice glicêmico, caminhada rápida diária adicional e suplementação de vitamina D.

Embora a análise principal não tenha demonstrado diferença estatisticamente significativa na recorrência da doença entre os dois grupos, os pesquisadores observaram que as pacientes com câncer de mama hormônio-positivo que apresentaram maior adesão ao programa tiveram um risco 76% menor de recorrência. Além disso, a estratégia foi associada a maior perda de peso e redução mais expressiva da síndrome metabólica.

“O estudo reforça evidências já observadas em outras pesquisas e confirma a importância dos hábitos de vida no contexto do câncer de mama. Trata-se de um estudo de fase 3, randomizado, que acompanhou um número expressivo de pacientes, com mais de 200 mulheres em cada grupo, comparando uma intervenção baseada em dieta mediterrânea de baixo índice glicêmico e suplementação de vitamina D com o acompanhamento convencional. Os resultados são bastante relevantes, mostrando que mudanças no estilo de vida ajudam a reduzir a síndrome metabólica, favorecem a perda de peso e podem contribuir para a diminuição do risco de recorrência da doença”, afirma Mariana Laloni, diretora médica técnica da Oncoclínicas. 

Segundo a especialista, os achados trazem uma mensagem importante para pacientes e profissionais de saúde ao mostrarem que o acompanhamento após o tratamento vai além da vigilância clínica. “Os resultados reforçam que as mudanças no estilo de vida continuam sendo importantes mesmo após o diagnóstico do câncer de mama. Já sabemos que fatores ambientais estão relacionados ao desenvolvimento da doença e que medidas como controle do peso, alimentação com menor índice glicêmico e prática regular de atividade física ajudam a reduzir esse risco. Agora, este estudo acrescenta evidências de que, no período pós-diagnóstico e pós-tratamento, estratégias voltadas ao controle do peso, à qualidade da alimentação e à suplementação de vitamina D também podem contribuir para reduzir o risco de recorrência do câncer de mama”.

Exercício físico em oncologia realizado à distância melhora qualidade de vida durante imunoterapia

À medida que os tratamentos oncológicos se tornam mais eficazes e prolongam a sobrevida dos pacientes, cresce também a preocupação em reduzir o impacto físico e emocional da doença e de suas terapias. Nesse contexto, o exercício físico vem ganhando espaço como uma importante ferramenta de suporte, capaz de melhorar a qualidade de vida, reduzir sintomas e ajudar os pacientes a manterem sua funcionalidade durante o tratamento.

Um estudo brasileiro apresentado na ASCO 2026 reforçou essa tendência ao demonstrar que programas estruturados de atividade física podem trazer benefícios relevantes mesmo quando realizados à distância. A pesquisa avaliou os efeitos de uma intervenção de 12 semanas em pacientes com câncer avançado que estavam recebendo imunoterapia, modalidade terapêutica que revolucionou o tratamento de diversos tumores, mas que também pode estar associada a fadiga, limitações físicas e impactos emocionais significativos.

Ao todo, 70 pacientes foram randomizados para receber acompanhamento remoto especializado ou seguir apenas os cuidados habituais. O programa incluía consultas virtuais semanais com profissionais capacitados, prescrição individualizada das atividades, suporte por vídeos e monitoramento contínuo por telemedicina.

Os resultados mostraram melhora significativa na qualidade de vida dos participantes que integraram o programa, além de redução da carga de sintomas relacionados ao tratamento. Outro dado que chamou atenção foi a diminuição do medo da recorrência ou progressão da doença, um dos aspectos psicológicos mais frequentes e, muitas vezes, menos abordados durante a jornada oncológica.

“O exercício físico em oncologia já é reconhecido como uma importante ferramenta de suporte ao paciente com câncer. O que nosso estudo mostra é que, mesmo à distância, com acompanhamento estruturado e individualizado, é possível alcançar benefícios clínicos relevantes durante a imunoterapia”, afirma Paulo Bergerot, oncologista da Oncoclínicas e primeiro autor do estudo.

Além dos ganhos clínicos observados, a pesquisa levanta uma discussão importante sobre acesso ao cuidado. Nem todos os pacientes conseguem frequentar centros especializados ou participar presencialmente de programas de reabilitação e exercício físico em oncologia, seja por limitações físicas, distância geográfica ou questões financeiras.

A possibilidade de oferecer intervenções remotas também pode ampliar significativamente o acesso a esse tipo de suporte. Muitos pacientes encontram dificuldades para participar de programas presenciais ao longo do tratamento, seja por limitações físicas, distância geográfica ou questões logísticas. Nesse contexto, o uso de ferramentas digitais permite levar o acompanhamento especializado para dentro de casa, facilitando o acesso a estratégias já reconhecidas por seus benefícios para a saúde e a qualidade de vida. 

Os resultados reforçam uma mudança importante na oncologia moderna: intervenções voltadas à qualidade de vida deixam de ser consideradas complementares e passam a integrar de forma cada vez mais consistente o tratamento dos pacientes.

Estudo brasileiro aponta que telemedicina pode reduzir internações e tratamentos agressivos no fim da vida de pacientes com câncer

Os cuidados paliativos vêm passando por uma transformação importante dentro da oncologia. Historicamente associados apenas aos momentos finais da vida, hoje são reconhecidos como parte fundamental do tratamento de pacientes com câncer avançado, atuando no controle de sintomas, no suporte emocional, na comunicação com famílias e na preservação da qualidade de vida.

Dentro desse contexto, um estudo brasileiro trouxe evidências sobre o papel da telemedicina na ampliação do acesso a esse tipo de assistência. A pesquisa avaliou retrospectivamente 116 pacientes oncológicos em cuidados paliativos que realizaram consultas remotas nos últimos 30 dias de vida.

Os resultados mostraram associação entre o acompanhamento por telemedicina e menores taxas de hospitalização, menor utilização de unidades de terapia intensiva e redução de tratamentos modificadores de doença considerados fúteis no contexto de terminalidade.

O trabalho ganhou ainda mais relevância por ter sido selecionado para apresentação oral durante o congresso, espaço reservado a estudos considerados de maior impacto científico.

“Na oncologia moderna, um dos principais indicadores de qualidade em cuidados paliativos é justamente evitar que o paciente passe os últimos dias de vida no hospital, especialmente em terapia intensiva, submetido a intervenções que não modificam o curso da doença e podem aumentar sofrimento físico e emocional”, afirma Igor Morbeck, oncologista da Oncoclínicas e um dos pesquisadores envolvidos no estudo.

A pesquisa dialoga com uma mudança de paradigma observada internacionalmente. Nas últimas décadas, diversos estudos demonstraram que a integração precoce dos cuidados paliativos pode melhorar a qualidade de vida, reduzir sofrimento psicológico e evitar intervenções desnecessárias, sem comprometer a qualidade da assistência.

Nesse cenário, a possibilidade de oferecer acompanhamento remoto ganha relevância especial. Pacientes em cuidados paliativos frequentemente apresentam limitações físicas importantes, fadiga intensa, dores e dificuldades de locomoção, tornando deslocamentos frequentes ao hospital experiências desgastantes para eles e seus familiares.

“O que observamos é que a telemedicina pode funcionar como uma ferramenta importante para ampliar suporte, orientar famílias e favorecer um cuidado mais humanizado e centrado no paciente, muitas vezes dentro do próprio ambiente domiciliar”, explica Morbeck.

Para Alexandra Arantes, médica paliativista da Oncoclínicas e autora responsável pela apresentação do estudo, a discussão vai além da tecnologia. “Grande parte dos pacientes deseja permanecer ao lado da família, em um ambiente conhecido, com conforto e controle adequado de sintomas. O desafio é oferecer estrutura para que isso aconteça com segurança.”

Os resultados sugerem que a telemedicina pode se tornar uma importante aliada na construção de modelos assistenciais mais humanizados, centrados nas preferências e necessidades individuais dos pacientes.

Por que a oncologia começa a olhar para o sofrimento emocional dos pacientes jovens

Durante décadas, os avanços da oncologia foram medidos principalmente por indicadores como resposta tumoral, tempo livre de progressão e sobrevida. Embora esses parâmetros continuem fundamentais, um novo movimento vem ganhando força internacionalmente: compreender os impactos emocionais, sociais e psicológicos do câncer, especialmente entre pacientes diagnosticados em fases precoces da vida adulta.

Esse debate ganhou destaque por meio de uma sessão educacional dedicada ao bem-estar emocional e psicossocial de pacientes jovens com câncer, conduzida pela psico-oncologista Cristiane Bergerot, líder nacional da especialidade de equipe multidisciplinar da Oncoclínicas. “O impacto vai muito além da doença”, afirma a especialista.

Segundo Bergerot, o aumento dos chamados cânceres de início precoce vem impondo novos desafios à oncologia. Diferentemente de pacientes mais velhos, muitos adultos jovens recebem o diagnóstico em um momento marcado pela construção da carreira profissional, planejamento familiar, formação de relacionamentos e desenvolvimento da própria identidade.

“Para muitos pacientes, o diagnóstico acontece justamente durante a construção da carreira, criação dos filhos, planejamento familiar, desenvolvimento de relacionamentos e formação da própria identidade. Medo da recorrência, ansiedade, depressão, toxicidade financeira, preocupações com fertilidade, desafios relacionados à parentalidade e incertezas sobre o futuro frequentemente passam a fazer parte da experiência do câncer e, muitas vezes, persistem além do tratamento.”

A relevância do tema foi reforçada por um estudo multicêntrico brasileiro também apresentado durante o congresso. A pesquisa acompanhou 2.197 pacientes atendidos em todas as regiões do país para entender como o sofrimento emocional evolui ao longo do tratamento oncológico.

Os pesquisadores identificaram diferentes perfis de risco emocional, incluindo pacientes estáveis, vulneráveis, moderadamente afetados e um grupo considerado crítico, caracterizado por sofrimento psicológico persistente e intenso. Embora muitos pacientes tenham mantido estabilidade emocional, uma parcela importante apresentou piora progressiva de ansiedade, depressão e qualidade de vida ao longo da jornada do câncer.

Os resultados reforçam uma tendência crescente na oncologia moderna: incorporar avaliações regulares de sofrimento emocional e desenvolver estratégias psicossociais personalizadas como parte da rotina assistencial.

“À medida que a sobrevida aumenta, nossa responsabilidade também precisa evoluir. O cuidado psicossocial não pode mais ser visto como um componente opcional do cuidado de suporte”, conclui Cristiane Bergerot.

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